Heitor Scalambrini Costa
A
sociedade mundial começa a perceber que o aquecimento global, ou
seja, uma mudança significativa no clima da Terra é um problema
real e sério. As terríveis previsões sobre secas, inundações,
tempestades, doenças, extinção de espécies, aumento do nível do
mar e desgraças afins, fazem parte dos resultados dos estudos
recentemente divulgados.
Quando
olhamos a história da Terra, podemos ver que mudanças climáticas
fazem a regra e não a exceção, e, aparentemente, o gás carbônico
tem um papel fundamental nestas mudanças, seja iniciando a mudança,
seja ampliando a mudança. Se provocarmos com nossas emissões de
carbono, via queima de combustíveis fósseis e desmatamento, uma
outra máxima termal, como a que aconteceu 55 milhões anos atrás,
não vai ser novidade para a Terra, mas certamente será uma novidade
triste para a civilização humana.
A
constatação feita pelo IPCC (sigla em inglês para Painel
Intergovernamental de Mudanças Climáticas), órgão da ONU
responsável por estudos sobre transformações do clima, de que os
pobres é que vão pagar a conta do caos climático, pode não ser
exatamente surpreendente, mas serve para chamar a atenção para a
dimensão ideológica do problema, que muitas vezes é ignorada ou
até mesmo deliberadamente deixada de lado, pois geralmente, a
ideologia vem depois do interesse. As mudanças climáticas poderão
ter não só implicações econômicas, ambientais e sociais, mas
para a paz e a segurança também. Isto é especialmente verdade em
regiões vulneráveis, que enfrentam diversas tensões ao mesmo tempo
- conflitos preexistentes, pobreza e acesso desigual a recursos,
instituições fracas, insegurança alimentar e incidência de
doenças como HIV/Aids.
Quando
se chega a esse ponto, não basta dizer que o capitalismo é o
culpado histórico pelas mazelas ambientais. Não basta denunciar que
os países que são os principais culpados pelo aquecimento global
serão os que menos vão sofrer suas conseqüências. É preciso
dizer que, se o atual modelo de produção e consumo capitalistas não
for profundamente alterado, todos serão atingidos, ricos e pobres
(esses primeiramente, claro). Essa alteração passa pela completa
revisão do conceito de crescimento econômico que a humanidade, em
sua fase capitalista, adotou como verdade divina. Está provado que a
idéia segundo a qual a humanidade pode crescer indefinidamente a
partir da “transformação da natureza” vai nos levar ao suicídio
global em pouco tempo. É preciso interromper o quanto antes essa
corrida ao abismo. Os bens da natureza são para sustentar a vida
humana e não para satisfazer os cofres das companhias multinacionais
ou nacionais que, aliás, nem sempre lembram que o fim último das
atividades é manter a vida sobre a Terra e não destruí-la para o
benefício limitado de umas poucas pessoas ou entidades.
A
Europa parece mais sensível à ameaça do caos climático nos
últimos anos, apesar de os maiores países ainda não cogitarem uma
profunda mudança no sistema econômico. O alto grau de
conscientização dos europeus em relação às questões ambientais
nutre a esperança de que, de baixo para cima, a pressão social
acabe por consolidar a mudança de postura dos governantes. A face
ambiental do esgotamento do capitalismo é muito mais vista e
discutida na Europa do que, por exemplo, nos Estados Unidos. Mesmo
lá, as coisas, ainda que lentamente, parecem começar a mudar. Nos
últimos meses, a maior parte da sociedade vem deixando o presidente
Bush (e seus aliados entrincheirados nos setores de petróleo,
construção civil e indústria bélica), cada vez mais isolados em
relação às questões ambientais. No início de abril, a Suprema
Corte dos EUA decidiu, contra a vontade do governo, que a agência
federal de proteção ambiental (EPA, na sigla em inglês) tem
autoridade para regular e tentar reduzir as emissões de dióxido de
carbono provenientes dos automóveis.
E
os maiores países ditos em desenvolvimento, o que fazem? A China
anunciou há pouco tempo que vai “crescer menos” para, entre
outras coisas, reduzir sua contribuição ao aquecimento global.
Será? Previsões indicam que ela deve, ainda este ano, ultrapassar
os Estados Unidos no “ranking” de maior emissora mundial de gases
provocadores do aquecimento da atmosfera.O governo da Índia, apesar
das suas crescentes emissões de gases provocadores do efeito estufa,
não tem um programa concreto de combate ao aquecimento global. A
África do Sul e a Indonésia limitaram-se a assinar o Protocolo de
Quioto e aguardam a “transferência de tecnologia”, para se
preparar para as mudanças climáticas.
Nesse
cenário, o Brasil cumpre papel fundamental, pois o rumo que seguirá
o país nos próximos anos deverá ajudar a definir o encaminhamento
global do combate às mudanças climáticas. A posição do governo
brasileiro é dúbia. De um lado, o país tem uma das mais avançadas
legislações ambientais do mundo e uma ex-ministra do Meio Ambiente
reconhecida internacionalmente e consciente da necessidade de
mudanças urgentes para evitar à catástrofe. De outro, setores com
forte influência no governo brasileiro parecem obedecer a uma
mentalidade desenvolvimentista ainda calcada na visão do “mais e
maior” e que ignora as dimensões sócio-ambientais do “crescimento
infinito”. Temos que nos posicionar contra clichês alardeados e
flagrantemente falsos em defesa do país.
No
Brasil e no exterior, existe em boa parte da esquerda (seja nos
governos, nos partidos ou na sociedade) muita dificuldade de aceitar
o fato de que o paradigma do crescimento econômico deve e precisa
ser profundamente alterado. À esquerda, precisa se adequar à
velocidade dos acontecimentos, pois o caos climático e suas
conseqüências se transformarão em poucos anos num fator de
contestação global do capitalismo como jamais houve na história.
Para estar à altura dos acontecimentos, uma boa idéia é começar a
deixar de lado um conceito de crescimento econômico que nos foi
imposto pelo próprio capitalismo. O fato é que jamais haverá, sob
o signo do capitalismo, a “salvação ambiental”. Por isso, a
luta socioambiental é hoje o instrumento mais importante para a
superação do capitalismo antes que o capitalismo acabe com as
condições para que a humanidade exista nesse planeta.
Algumas
das decisões que as sociedades vão precisar tomar dependerão de
uma solidariedade global, especialmente para a redução do fluxo de
carbono para a atmosfera. Não adianta um país reduzir o seu fluxo
de carbono se isto não está acompanhado por todos. Outras decisões,
principalmente de como adaptar as mudanças já em curso, são de
caráter regional, local e até individual. Mas, de qualquer maneira,
vamos precisar enfrentar o assunto de mudanças climáticas com ações
sensatas, ou falhar como outras sociedades falharam no passado.
Por
fim, é importante a responsabilidade e o comprometimento de todos
para com essa questão, e uma atenção cada vez maior para ações
parceiras entre todos os atores sociais: setor público, privado e o
terceiro setor.
2 comentários:
Para estar atentos a outros pontos de vista:
http://mitos-climaticos.blogspot.com/
http://mitos-climaticos.blogspot.com/2009/12/mais-uma-excelente-entrevista-do-prof.html
Mais uma excelente entrevista do Prof. Carlos Molion
O pensamento científico do distinto Prof. Carlos Baldicero Molion é conhecido dos leitores do MC. O Prof. deu uma entrevista recente ao sítio web UOL. Com enorme prazer, MC reproduz essa entrevista com o devido respeito ao Prof. e ao UOL.
http://mitos-climaticos.blogspot.com/2010/01/perguntas-e-respostas-do-prof-molion-1.html
Líder dos céticos do aquecimento global muda de idéia
Publicado por Manuela Alegria
em 3 de setembro, 2010
Fonte: Folha.com/Ambiente
O mais famoso cético do aquecimento global, o dinamarquês Bjorn Lomborg,
já chamado pelos seus oponentes de “Hitler do clima”, mudou de ideia. Ele
disse na terça-feira (31) ao jornal britânico “Guardian” que vai agora
lutar contra a mudança climática.
O estatístico, conhecido mundialmente por negar a importância do
aquecimento global e o barulho feito por cientistas, ativistas e a
imprensa em torno dele, vai lançar um livro no próximo mês pedindo
dinheiro em nome da sua nova bandeira.
Na obra, ele e um grupo de economistas analisaram oito métodos de redução
do aquecimento global e sugerem que seja injetado dinheiro, por exemplo,
em energias limpas como vento, ondas e energia solar e nuclear.
O ex-cético não é exatamente modesto na hora de pedir dinheiro: de acordo
com ele, serão necessários cerca de US$ 100 bilhões por ano para que as
iniciativas tragam resultados.
Vira-casaca – A mudança de lado do professor dinamarquês nos recentes
debates sobre o clima foi uma surpresa para a comunidade científica.
Na obra que lhe deu projeção internacional (“O Ambientalista Cético”), e
nas palestras e entrevistas que vieram depois dela, Lomborg abusou da
matemática para mostrar que o controle do aquecimento global seria uma
conta que não fechava.
Na sua opinião, o custo para combater o aquecimento era alto demais quando
comparado com o benefício de ter um mundo “ligeiramente menos quente no
futuro”.
Lomborg costumava defender que o ritmo do aquecimento e seus efeitos sobre
as pessoas estavam sendo exagerados pelos cientistas “pró-clima” e pelo
lobby dos que se beneficiariam com investimentos pesados em ações como
limpar a matriz enérgica, por exemplo.
Lomborg, no entanto, nega no “Guardian” que tenha feito uma reviravolta.
Ele disse que sempre aceitou a existência do efeito humano no aquecimento
global e que o importante, agora, é ver onde se deve gastar dinheiro para
combatê-lo.
Na série IPCC – O “episódio Lomborg” aconteceu um dia depois de um grupo
de 12 cientistas independentes ter feito uma série de recomendações ao
IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, na sigla em
inglês).
De acordo com os cientistas -que incluem um brasileiro, o físico Carlos
Henrique de Brito Cruz-, o painel do clima precisa passar por mudanças na
sua gestão e na coleta de informações.
Um dos pontos nevrálgicos do IPCC que levaram à revisão independente foi a
afirmação de que as geleiras do Himalaia desapareceriam em 2035, muito
antes do que outras fontes sugerem.
Lomborg bateu nessa tecla anteriormente, quando ainda era cético do clima.
Ele afirmou que a matemática do degelo estava errada e que, mesmo que o
degelo ocorresse, isso poderia ser benéfico, pois aumentaria a quantidade
de água disponível no verão para a China e Índia.
O dinamarquês pretende continuar criticando as contas do Himalaia. Mas,
agora, sem desprezar as recomendações do IPCC.
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