Prof .Daniel Rodrigues – membro do Conselho Universitário da UFPE
A universidade desenvolveu-se sempre numa contradição básica: a reprodução social e do conhecimento e a crítica ao poder, ao próprio conhecimento vigente! O conhecimento, a filosofia, a busca científica pela verdade em vários momentos históricos trouxe à baila um elemento diferente do que era tradicional em seu papel como educação superior, a saber: a possibilidade de opor-se, criticar a ordem estabelecida.
Assim tivemos vários momentos da história da universidade, especialmente a brasileira, um movimento crítico, um sopro de ares opostos do poder. Também tivemos momentos obscuros como a cassação centenas de professores e estudantes na época da ditadura militar do século passado. A crítica, a ação política reveladora dos projetos elitistas ou pseudo-populares, foram elementos decisivos para conquistarmos alguns degraus de democratização na sociedade e universidade. Exemplo disto, foi o processo da luta pelas eleições para reitor. Para tal, a crítica foi uma das armas estruturais para que se conquistasse, mesmo que parcialmente essa consulta.
Mesmo com essa conquista, ainda estamos debaixo da estrutura vigente desde a época da ditadura. Não podemos exercer, em sua plenitude, essa escolha, ainda existe uma legislação antiautônoma, bem como um Conselho Universitário estruturado de forma antidemocrática sob a feição ainda da ditadura militar. Não há uma representação real dos estudantes, não há eleições para a maioria dos cargos de conselheiro. Ainda não realizamos uma ESTATUINTE!
Construir uma universidade pautada por uma ciência voltada para a maioria e não simplesmente para o mercado, na direção na construção de uma universidade forte enraizada em um projeto de transformação social, deve ter como base fundamental o resgate da crítica. No entanto, essa situação de estreita ligação com o governo central nos deixa muitas vezes à mercê de um posicionamento claro em defesa dessa universidade efetivamente de qualidade e de cunho popular.
A ausência de um processo efetivamente autônomo e crítico empobrece muitíssimo a nossa universidade, não aponta para um projeto que seja socialmente referenciado na perspectiva de uma profunda transformação social, em especial, no que tange à universidade numa socialização do conhecimento, da ciência. Que não seja simplesmente a construção de prédios sem a clareza de um projeto político educacional questionador da lógica dominante do capital, que na ação da universidade sobressaia a crítica à lógica dominante do poder.
Eis o desafio da construção de um projeto para a universidade, colocar a crítica comprometida com as transformações sociais, científicas de forma mais ampla e profunda possível. Um compromisso que passa pela democratização das estruturas da universidade, que passa pela efetiva participação dos três segmentos, os estudantes, os técnico-administrativos e professores. Que passa pelo aprofundamento da relação com a sociedade, que espera uma outra universidade, para a construirmos um processo efetivamente transformador da realidade, uma universidade crítica e forte, socialmente referenciada.